A frota de veículos na Paraíba saltou de 257.279 veículos para 1.362.383, entre 2000 e 2019, segundo dados do Departamento de Trânsito da Paraíba (Detran-PB). Um número cinco vezes maior, que preocupa cada vez mais as autoridades de trânsito e que começa a ser tratado como uma questão de saúde pública, principalmente por causa do aumento alarmante no número de motos que circulam no estado. Na maioria dos municípios com menos de sete mil habitantes, por sinal, a quantidade de motos já supera a soma dos demais veículos.
As motos respondiam por apenas 20,1% da frota em 2000, já que naquele ano só existiam 51.862 delas circulando na Paraíba. Em 2019, contudo, as motos já eram 45,19% da frota, visto que passaram a ser 615.696 delas. Uma realidade que resulta em acidentes, mortes, hospitais superlotados, milhões e milhões de reais investidos em saúde pública.
Segundo dados apresentados pelo superintendente do Detran-PB, Agamenon Viera, os acidentes de motos respondem atualmente a 75% dos acidentes de trânsito e a grande maioria dos leitos ocupados em hospitais de emergência e trauma do estado. “Cerca de 70% das ocupações nos hospitais são de pessoas acidentadas. E, desses, a grande maioria é de acidentes de motos”, pontuou.
Agamenon Vieira, superintendente do Detran-PB — Foto: Divulgação / Secom-PB
Agamenon Vieira, superintendente do Detran-PB — Foto: Divulgação / Secom-PB
Ele sugeriu se visitar os hospitais de traumas de João Pessoa e de Campina Grande num fim de semana para se certificar do número de vítimas de acidentes de moto que dão entrada nas duas unidades hospitalares a cada dia.
“O cenário é de praça de guerra. Morre uma pessoa. Não tem leito para todo mundo. O médico corre para ver quem está mais grave, quem dá para salvar. É assim a noite inteira”, descreveu Agamenon Vieira.
O superintendente do Detran-PB apresenta um outro dado preocupante. Segundo ele, 94% de todos os acidentes de moto são decorrentes de falhas humanas, enquanto que apenas 6% são de falhas mecânicas. “A absoluta maioria dos acidentes poderiam ser evitada, mas é provocada por excesso de velocidade, pilotagem sob efeito de álcool e desrespeito à legislação de trânsito”.
Acidentados de trânsito superlotam hospitais e sobrecarregam o Samu — Foto: Walter Paparazzo/G1
Acidentados de trânsito superlotam hospitais e sobrecarregam o Samu — Foto: Walter Paparazzo/G1

Problema nas pequenas e nas grandes cidades

O superintendente do Detran-PB, Agamenon Vieira, explica também que o aumento exagerado no número de motos na frota paraibana é um fenômeno tanto das pequenas cidades, como das grandes cidades. Nas pequenas, o veículo de duas rodas substituiu a força animal no trabalho do campo.
“Na maioria das pequenas cidades paraibanas com menos de sete mil habitantes, o número de motos já supera a soma dos outros veículos”, explica. “Mulas, jegues, cavalos, vacas foram sendo substituídos pela moto em cidades que, muitas vezes, o próprio prefeito defende uma fiscalização menos rígida”, completou.
Acidente de moto na área rural de Conceição: nas pequenas cidades, as motos estão substituindo os animais e ajudando a aumentar as estatísticas — Foto: Beto Silva/TV Paraíba
Acidente de moto na área rural de Conceição: nas pequenas cidades, as motos estão substituindo os animais e ajudando a aumentar as estatísticas — Foto: Beto Silva/TV Paraíba
Já com relação às cidades maiores, são os serviços de entrega à domicílio que provocaram o aumento das motos. “Hoje em dia se entrega em casa de tudo. Do remédio à autopeça, passando por pedidos em restaurantes. É uma disputa para chegar primeiro, para entregar mais rápido. E as pessoas acabam morrendo”, lamentou.
Agamenon explica ainda que essa realidade não é restrita à Paraíba, ainda que o estado também sofra demasiadamente com a questão. “Em todo o Brasil, são bilhões e bilhões de reais gastos todos os meses para tratar esses acidentados. Um dinheiro que poderia ser investido em outras áreas, como a educação, e que acaba sendo destinado a cuidar de um número cada vez maior de pessoas feridas”, destacou.
O problema das motos na Paraíba
A Paraíba tem hoje:615.696 motos
Isso representa:45,19% de toda a frota
Os acidentes de trânsito:75% deles envolvem motos
A origem dos acidentes:94% deles são provocados por falha humana
Os hospitais de trauma:70% dos leitos são ocupados por acidentados

Em busca de uma solução

Em novembro de 2019, a Assembleia Legislativa da Paraíba aprovou uma lei que obriga os hospitais da Paraíba a notificar ao Detran da Paraíba os acidentados de trânsito que apresentem sinas de embriaguez ou de uso de drogas. A ideia é fazer um novo mapeamento sobre o problema e definir novas estratégias para combater a alta incidência de acidentes.
Agamenon Vieira explica que esses dados vão ser processados pelo Departamento de Estatísticas do órgão. Identificando onde o problema é maior, as campanhas de fiscalização e de conscientização poderão se concentrar onde realmente elas serão mais efetivas.
Hospitais como o de Trauma de João Pessoa precisam notificar o Estado sobre acidentados que deem entrada com sinais de embriaguez ou uso de drogas — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco
Hospitais como o de Trauma de João Pessoa precisam notificar o Estado sobre acidentados que deem entrada com sinais de embriaguez ou uso de drogas — Foto: Reprodução/TV Cabo Branco
Ainda assim, o superintendente do Detran-PB é sincero ao dizer que não acredita em nenhuma melhora efetiva se não houver uma mobilização de toda a sociedade.
“Ou nós partimos para uma campanha envolvendo toda a sociedade civil, ou seguiremos vivendo nesta guerra, nesta epidemia. São 55 mil acidentados de trânsito no Brasil todos os anos. Quantos não morrem? Quantos não ficam em cadeiras de rodas, encostados pelo INSS? Quantos bilhões não estão sendo gastos em tudo isso?”, questiona.
Ele defende, como verdadeira solução, que a educação no trânsito vire disciplina escolar. Que seja tratado de forma séria desde a infância. “Precisamos colocar no imaginário da população, desde criança, um cuidado maior no trânsito para que as pessoas parem de morrer”.
Fonte: G1